Guia de viagem
Viajar sem falar inglês: o guia prático para se comunicar no exterior
Dá, sim, para viajar sem falar inglês. Milhões de brasileiros fazem isso todo ano e voltam com histórias boas, não traumas. O que muda não é se você vai conseguir se comunicar, mas quanto trabalho isso vai dar, e quase todo esse trabalho pode ser adiantado em casa.
Este guia junta o que funciona de verdade: o que preparar antes de embarcar, onde o inglês ajuda e onde não adianta nada, como se virar sem idioma nenhum, como conversar bem usando um tradutor de voz (a parte que quase ninguém explica) e uma frase pronta para abrir a conversa em seis idiomas, com áudio.
Antes de embarcar: o kit de comunicação
A maior parte dos apertos de quem não fala a língua acontece por falta de preparo, não por falta de vocabulário. Esta lista leva uma tarde e evita a maioria deles.
- Garanta internet no celular. Mapa, tradutor, aplicativo de transporte e mensagem para o hotel dependem dela. Chip local, eSIM de viagem ou pacote de roaming: escolha um antes de sair. Wi-Fi do hotel e do café não bastam para quem está perdido na rua.
- Tenha o endereço do hotel escrito na língua local. Um print do endereço e o cartão do hotel na carteira. Se se perder, mostrar o endereço a um taxista ou a um policial resolve em segundos.
- Baixe o mapa da cidade para uso offline. Os principais aplicativos de mapa permitem salvar a área antes. Se a internet cair, você continua sabendo onde está.
- Imprima os documentos importantes: passagem de volta, reservas de hospedagem, seguro-viagem e comprovantes. Na imigração, papel é mais rápido que procurar arquivo no celular, e em muitos aeroportos é proibido usar o celular no guichê.
- Aprenda dez frases no idioma do destino. Cumprimentar, agradecer e pedir licença na língua local muda o humor de quem vai atender você. Para a Itália, há um guia de frases em italiano para viagem com áudio e pronúncia.
- Instale e teste o tradutor em casa, com alguém da família, e não na fila da imigração. Se o tradutor tiver modo offline, baixe os idiomas no Wi-Fi antes de viajar. Em como escolher um tradutor para viagem há um teste de 10 minutos para fazer antes.
- Anote alergias, restrições e remédios na língua local. Remédio pelo princípio ativo (o nome menor na caixa, como "paracetamol" ou "ibuprofeno"), não pela marca, que muda de país para país.
- Treine os números. Preço, portão de embarque, número do ônibus e horário são o que mais se ouve. Se travar, peça para a pessoa escrever ou mostrar na calculadora do celular.
Onde o inglês ajuda (e onde não adianta)
"Sem inglês não dá" é um mito, mas o contrário também é: em vários lugares o inglês nem resolveria. Um panorama honesto, sempre com a ressalva de que tudo depende da cidade e da pessoa:
- Portugal: fala português, mas com outro vocabulário. Trem é comboio, ônibus é autocarro, café da manhã é pequeno-almoço, banheiro é casa de banho, e fila é bicha. O ouvido estranha o sotaque nos primeiros dias; depois passa.
- Espanha e América Latina hispânica: o espanhol é próximo o bastante para o "portunhol" funcionar no básico, mas não confie cegamente nele. Há falsos amigos traiçoeiros: embarazada é grávida, exquisito é delicioso, oficina é escritório, polvo é pó (o polvo é pulpo) e cena é jantar.
- Itália e França: nas áreas turísticas, quase sempre alguém se vira em inglês. Fora delas, com gente mais velha e em cidades pequenas, bem menos. Nos dois países, começar com um cumprimento na língua local (buongiorno, bonjour) faz enorme diferença: na França, entrar numa loja sem um bonjour é considerado falta de educação.
- Alemanha, Holanda e países nórdicos: o inglês é muito difundido, inclusive fora do circuito turístico.
- Japão, China e Coreia do Sul: o inglês é limitado fora de hotéis e grandes centros. A sinalização do transporte nas cidades grandes costuma ter inglês, mas a conversa com um atendente, um taxista ou um farmacêutico raramente acontece em inglês. Tradutor e endereços escritos no alfabeto local fazem falta de verdade. Na China continental, muitos serviços e aplicativos ocidentais não funcionam: confira antes quais vão funcionar por lá.
- Estados Unidos e Reino Unido: aqui o inglês é a própria língua. Em cidades como Miami e Nova York, é comum encontrar quem fale espanhol.
O resumo: nos destinos mais procurados por brasileiros, a comunicação básica se resolve com frases curtas, gestos e um tradutor. O que exige cuidado são as conversas longas: um problema no hotel, uma consulta, uma cobrança indevida.
Comunicação sem idioma: o que funciona
Mesmo sem tradutor, dá para ir longe com técnicas que qualquer viajante experiente usa:
- Aponte e mostre. Aponte no cardápio, mostre a foto do prato, do remédio ou do lugar. Uma imagem vale mais que uma frase mal traduzida.
- Escreva números, datas e horários num papel ou no celular. É onde a comunicação falada mais falha.
- Use palavras-chave, não frases. "Estação?", "Hotel Roma?", "Quanto?", ditas com uma expressão de dúvida, são entendidas no mundo inteiro.
- Procure os mais jovens e os funcionários de hotel. Em qualquer país, são os que mais falam inglês ou espanhol, e o recepcionista do seu hotel é o seu melhor aliado: peça que escreva um endereço, ligue para um restaurante ou explique como chegar a algum lugar.
- Prefira restaurantes com cardápio com fotos quando estiver num lugar onde nada é familiar, e use a câmera do tradutor para ler os cardápios que não tiverem.
- Sorria e agradeça na língua local. Parece pouco, mas quem é bem tratado tem muito mais paciência com a sua mímica.
Como conversar bem usando um tradutor de voz
Tradutor de voz no celular transformou a viagem de quem não fala a língua, mas usar bem faz toda a diferença entre uma conversa que flui e uma sequência de mal-entendidos. Estas regras valem para qualquer aplicativo:
- Frases curtas, uma ideia por vez. "Quero ir ao museu. Qual ônibus eu pego?" funciona melhor do que uma frase longa com três pedidos dentro. Espere a tradução e a resposta antes de continuar.
- Fale como se estivesse escrevendo. Sem gírias, sem "tipo assim", sem ironia e sem piada: o tradutor leva tudo ao pé da letra. "Tô morrendo de fome" pode virar algo estranho; "Estou com muita fome" não.
- Confira nomes, números e datas na tela. É onde mais acontecem erros. Se o horário ou o valor importam, peça para a pessoa confirmar, escrevendo ou mostrando nos dedos.
- Avise antes que vai usar o tradutor. Uma frase na língua local, como as da próxima seção, prepara a pessoa e evita que ela estranhe o celular apontado para ela.
- Deixe o celular entre vocês, e não na sua mão, colado à sua boca. A outra pessoa precisa falar perto do microfone também. Em lugar barulhento, aproxime o aparelho de quem está falando.
- Deixe a pessoa terminar de falar. Cortar no meio faz o tradutor perder o fim da frase. E, se a resposta vier estranha, pergunte de outro jeito em vez de repetir igual.
- Mostre a tela quando o barulho atrapalhar. Muitos tradutores exibem a tradução em letras grandes; num balcão lotado, ler é mais fácil do que ouvir.
- Confirme o que é importante. No fim, resuma em uma frase: "Então o trem sai às 15h da plataforma 4?". Se a pessoa concordar, você entendeu certo.
A frase para abrir a conversa, em 6 idiomas
Uma frase resolve metade do constrangimento: pedir desculpas por não falar a língua e perguntar se pode usar o tradutor. Dita na língua da pessoa, mesmo com sotaque, ela sinaliza respeito, e quase todo mundo responde com boa vontade. Ouça cada uma com o ▶. A pronúncia é aproximada, escrita para quem fala português, e a sílaba forte vem em MAIÚSCULAS (no francês e no japonês, que não têm sílaba forte como o português, tudo vai em minúsculas).
Inglês
Sorry, my English isn't very good. Can I use a translation app?
Pronúncia: SÓ-ri, mai ÍN-glich Í-zent VÉ-ri GUD. KÉN ai IÚZ a trans-LÊI-chan ÉP?
Desculpe, meu inglês não é muito bom. Posso usar um aplicativo de tradução?
Espanhol
Perdón, no hablo español. ¿Puedo usar una aplicación de traducción?
Pronúncia: per-DÔN, no Á-blo es-pa-NHÔL. PUÉ-do u-SÁR U-na a-pli-ca-SIÔN de tra-duc-SIÔN?
Desculpe, não falo espanhol. Posso usar um aplicativo de tradução?
Francês
Excusez-moi, je ne parle pas français. Est-ce que je peux utiliser une application de traduction ?
Pronúncia: ecs-cü-zê-muá, jê nê parl pá fran-sé. és-quê jê pê ü-ti-li-zê ün a-pli-ca-ssiõ dê tra-dük-ssiõ?
Com licença, não falo francês. Posso usar um aplicativo de tradução?
Italiano
Mi scusi, non parlo italiano. Posso usare un'app di traduzione?
Pronúncia: mi SCÚ-zi, non PÁR-lo i-ta-LIÁ-no. PÓS-so u-ZÁ-re un-ÁP di tra-du-TSIÔ-ne?
Com licença, não falo italiano. Posso usar um aplicativo de tradução?
Alemão
Entschuldigung, ich spreche kein Deutsch. Darf ich eine Übersetzungs-App benutzen?
Pronúncia: ent-CHÚL-di-gung, ikh CHPRÉ-khê cáin DÓITCH. DÁRF ikh ÁI-nê ü-ber-ZÉ-tsungs-ÉP be-NÚ-tsen?
Com licença, não falo alemão. Posso usar um aplicativo de tradução?
Japonês
すみません、日本語が話せません。翻訳アプリを使ってもいいですか?
Pronúncia: su-mi-ma-sen, ni-hon-go ga ha-na-se-ma-sen. hon-iá-ku a-pu-ri o tsu-cát-tê mo ii dess-cá?
Com licença, não falo japonês. Posso usar um aplicativo de tradução?
Algumas observações:
- Francês: o "ü" é o som de "i" dito com os lábios em bico, como para assobiar. O francês não tem sílaba forte como o português: a ênfase cai levemente no fim de cada grupo de palavras.
- Espanhol: na Espanha, o "c" antes de "i" (como em traducción e aplicación) costuma soar como o "th" do inglês; na América Latina, como "s". As duas formas são entendidas em todo lugar.
- Alemão: o "ikh" é um "i" seguido de um sopro, como um gato chiando baixinho. "Entschuldigung" é o "com licença" e o "desculpe" para tudo.
- Japonês: o japonês não tem sílaba tônica como o português. Fale as sílabas por igual, sem pressa, e o "u" de desu quase some. Sumimasen sozinho já serve para chamar alguém, pedir licença e se desculpar.
- Inglês: a frase é "desculpe, meu inglês não é muito bom". Soa mais natural do que dizer em inglês que você não fala inglês.
Situações difíceis e como resolver
Na imigração
É a situação que mais assusta quem não fala inglês, mas o roteiro é previsível: o agente quer saber o motivo da viagem, quanto tempo você vai ficar, onde vai se hospedar e se tem passagem de volta. Tenha os documentos impressos, numa pasta, na ordem, e responda de forma curta. Se não entender, diga que não fala bem o idioma e peça para repetir devagar, ou pergunte se há alguém que fale português ou espanhol. Confira antes, no site oficial do país ou do Itamaraty, quais documentos são exigidos para brasileiros, porque as regras mudam.
Na farmácia ou no médico
Mostre o nome do princípio ativo por escrito, aponte onde dói e use o tradutor para descrever os sintomas, uma frase por vez. Para qualquer coisa além de um sintoma leve, procure atendimento com o seguro-viagem: muitos têm central em português, e ela pode indicar clínicas com atendimento em português ou em inglês.
Perdido na rua
Abra o mapa offline, ou mostre o endereço do hotel escrito na língua local a um policial, a um taxista ou a um funcionário de loja. Evite abordar pessoas aleatórias de noite, em lugares vazios; prefira estabelecimentos abertos.
Problema no hotel
Cobrança que você não reconhece, quarto diferente do reservado, ar-condicionado quebrado: aqui vale ter a conversa com calma, na recepção, com o tradutor entre vocês e as reservas impressas na mão. Se a resposta for confusa, peça por escrito.
Táxi
Mostre o endereço escrito, e não só o nome do lugar. Onde houver aplicativo de transporte, ele elimina a conversa sobre destino e preço. Em táxi comum, confira se o taxímetro está ligado ou combine o valor antes, e escreva o número para os dois verem.
Onde entra o Vozport
O Vozport é um tradutor de voz feito para exatamente esse tipo de conversa: frente a frente, com o celular entre as duas pessoas. Você fala em português, o app percebe sozinho qual idioma foi falado, traduz e fala a tradução em voz natural; a outra pessoa responde no idioma dela, e você ouve em português. Ninguém precisa apertar um botão diferente para cada idioma, e o botão "Mostrar" coloca a tradução em letras grandes, em tela cheia, para a outra pessoa ler.
O que é bom saber antes: cada tradução leva alguns segundos; o app não pede cadastro e dá 25 frases grátis para testar. Sem internet, ele só traduz para assinantes que baixaram os idiomas antes, em aparelhos com 6 GB de RAM ou mais, e com qualidade um pouco menor que a online. E, como todo tradutor automático, pode errar. Não use em emergências médicas, jurídicas ou de segurança.
Perguntas frequentes
Dá para viajar sozinha sem falar inglês?
Dá, com preparo. As dicas são as mesmas deste guia, com atenção redobrada a três pontos: internet garantida no celular o tempo todo, endereço do hotel escrito na língua local e documentos impressos. Prefira chegar de dia nas primeiras viagens e, se possível, escolha hospedagens bem avaliadas pelo atendimento, porque a recepção vai resolver muita coisa por você.
Precisa falar inglês na imigração?
Não é exigido. As perguntas são simples e previsíveis (motivo da viagem, tempo de estadia, hospedagem, passagem de volta), e os documentos impressos respondem boa parte delas. Se não entender, diga que não fala bem o idioma e peça para repetir devagar. Em muitos aeroportos é proibido usar o celular no guichê, então não conte com o tradutor nesse momento.
Tradutor de voz funciona sem internet?
Depende do aplicativo. Alguns só funcionam online; outros traduzem texto offline, mas não voz; e alguns traduzem voz offline, desde que você baixe os idiomas antes, o que costuma ocupar bastante espaço e exigir um celular com mais memória. Em geral, a qualidade offline é um pouco menor que a online. Teste em modo avião antes de viajar.
Qual o destino mais fácil para quem não fala inglês?
Portugal, pela língua, e depois os países de língua espanhola, como Argentina, Uruguai, Chile e Espanha, onde o portunhol resolve o básico. A Itália também costuma ser tranquila para brasileiros, porque muitas palavras se parecem com o português. Já Japão, China e Coreia exigem mais preparo, mas milhares de brasileiros viajam para lá sem falar a língua.
Portunhol funciona?
Funciona para o básico (pedir comida, perguntar preço, pedir informação), porque espanhol e português são próximos. Falha nos falsos amigos e nas conversas mais longas. Aprenda os falsos amigos mais comuns e, para a conversa séria, use um tradutor.